Este domingo fui do céu ao inferno em poucas horas, acordei com minha feliz da vida com filhotes de pardal que nasceram no meu pé de limão. O pardal é um muito comum aqui em Curitiba, com costas cinza-amarronzado, peito em tom mais claro e barriga laranja, ficamos um bom tempo admirando a maneira como o casal de sabiás cuidavam dos filhotes que seguia a mesma regra, um sai para buscar alimento enquanto outro fica cuidando e vice-versa. Um sábado antes eu e meu cunhado nos matávamos dar risada com um casal de quero-queros que atacavam uma ave de rapina – um gavião se não me engano – que era bem maior do que eles. O resto do segui-se normal, li o jornal, almocei, comecei assistir a corrida pois gosto de Fórmula 1, torcendo pelo Rubinho, mas sempre com um pé a atrás, pois depois de 16 anos de frustração não como negar que ele é apenas um piloto medíocre e para piorar corinthiano, mas ainda assim, como é brasileiro, mesmo sem muito entusiasmo torci. Mas eis que o Barrichelo entra para o pit stop e meu telefone toca, passo para minha mãe que tinha acabado de entrar no banheiro para tomar banho pois iria sair para visitar seu irmão. Rubens Barrichelo nem tinha completado uma volta em Interlagos e minha mãe abre a porta do banheiro chorando dizendo que meu primo de 20 anos tinha morrido. A causa mortis é uma daquelas doenças cruéis que ninguém explica e que sempre trai. A família dele – apesar de tratá-lo como primo não somo parentes de sangue – por parte de pai, tem uma doença genética que faz com que órgãos do corpo inchem aparentemente aleatoriamente, a doença afeta todos os todos os membros do sexo masculino e parte das mulheres, o causou a morte do meu primo foi que inchou a garganta o trancou a respiração, quando o SAMU chegou meu primo já estava roxo e morto, segundo meus primos ele também teve um ataque cardíaco, provavelmente causado pela combinação de falta oxigênio, acesso de adrenalina pela nervosismo da falta ar e esforço em vão para chegar em casa, pois meu primo morreu na rua. Não que a doença agisse tão rápido, meu primo já tinha acordado com dor de garganta, mas como ele tinha que ir trabalhar, ele resolveu não ir ao médico pois se levasse atestado perderia a cesta básica mensal, exemplo de assédio moral, trabalhou de manhã, foi para casa almoçar – a empresa fica a menos de 50 metros da casa – voltou, no meio do caminho caiu no chão, provavelmente já tinha mudado a direção de volta a casa, pois morreu em direção a ela. Continuado minha passagem de domingo, desliguei a TV e fomos nós para Araucária, onde morava. O que se passou foi incrível, para efeito de comparação, cerca de um semana atrás foi morto um rapaz mais ou menos da mesma idade por acerto de contas do tráfico, no seu velório só tinha a mãe e os moradores da casa onde foi velado, estes visivelmente incomodados em ter que fazer aquilo. No do meu primo digo sem exagero, passou pelo menos 200, num projeção para baixo. Todas completamente tristes.
Os pais dele são meus padrinhos de crisma – apesar de não freqüentar igreja alguma, fui criado como católico – e sempre uso minha madrinha como exemplo para quando vejo pessoas arrogantes com fato de ter um diploma superior ou por estar numa posição financeira confortável, se acham melhores e mais inteligentes que os outros, a estes sempre digo: “uma das pessoas que mais admiro na vida me chama Frávio”. Ele é analfabeta e com muita dificuldade consegue escrever o próprio nome, meu padrinho completou o antigo primário e meu primos apenas fizeram ensino médio, mas são pessoas fantásticas, do tipo que não se vê mais, sempre foram muito pobres, quando chegaram a Curitiba moraram na minha casa por não ter onde ir, moraram no Sabará, favela da CIC, forma para o norte do Paraná, Inajá, para trabalhar na colheita de cana, voltaram e nunca antes estavam tão bem. Pela primeira vez todos estavam empregados, minha madrinha pela primeira vez conseguiu um emprego registrado, meus primos tiveram cada um filho lindo, este que morreu tinha um menina linda de 1 ano e meio, e um detalhe. Para quem é de classe média ou tem um diploma superior, mil reais é nada, mas para quem criou 3 filhos só com salário mínimo, ganhar isto e ver os 4 filhos ganhando isto era felicidade demais. Mas como para pobres...
No enterro foi triste ver o avó de meu primo, “o vô grandão como é chamado pelos bisnetos”, um senhor de 79 anos, falar: “Eu três vezes a idade de meu neto, ele foi, e eu continuo vivo”, um sobrinho de 4 anos, “o tio não vai mais acordar?” e os adultos todos chorando não souberam responder. Acho que por isto que temos necessidade de acreditar num céu, pois é duro suportar estas injustiças, como um pessoa honesta, trabalhadora, cheia de sonhos – queria cursar um universidade – pai de um menina linda, morrer de maneira tão estúpida, enquanto tantos... melhor nem falar. Minha madrinha é um das pessoas mais alegres que conheço, é raro não vela dando fartas gargalhadas, talvez não tenha mais aquela alegria. Minha esperança é que a fé inabalável de toda a família todos católicos fervorosos os ajude, por isto admiro aqueles que te fé.
“Se vier me vistar, por exemplo, as quatro horas, pelo menos desde as três serei feliz” Antoine de Saint-Exupéry, autor do Pequeno Príncipe