
Maria Helena acordava as sete horas da manhã igual fazia todos os dias, não porque precisasse ou gostasse de acordar cedo, fazia simplesmente porque fazia aquilo há alguns anos. Preparou o café da manhã reforçado (sua principal refeição, este variava bastante, comia de chuchu a feijoada nesta refeição). Hoje ela começou fazendo uma omelete de três ovos, várias folhas de espinafre cortadinha, alguns pedacinhos de presunto, um pouco, bem pouco, de sal, um pouco de salsicha, cebolinha, e é claro, muito óleo de oliva, seu favorito. Para beber, café solúvel dissolvido direto no leite quentíssimo com um pouquinho de ovomaltine, tudo isto numa grande caneca de louça, de quase meio litro, cheia até a boca. Comeu sua refeição matinal, saiu comprou o jornal, ou melhor, os dois: Folha de São Paulo e Gazeta do Povo, voltou para casa e ficou lendo a manhã inteira. Ao meio-dia saiu, foi a um restaurante vegetariano de tempero oriental, um dos seus favoritos, apesar de gostar muito de carne de porco. Passou num empório, comprou uma garrafa de vinho chileno, encorpado e de excelente qualidade, aliás, como são quase todos os vinhos daquele país, sentou-se a mesa de um café de um amigo, comprou um dos livros que se vendia ali, e ficou a tarde inteira a ler e a beber o vinho. Ao final da tarde já tinha lido todo o livro, que era muito bom apesar de pequeno e já tinha bebido três quartos da garrafa de vinho. Pegou a garrafa que já estava arrolhada – pois cada vez que abria a garrafa era sempre o mesmo ritual, tirava a rolha, enchia a taça, e arrolhava de novo – saiu pela rua até sua casa, no caminho jogou o livro a um mendigo que dormia na calçada. Chegou a sua casa, colocou a chave na fechadura com dificuldade, pois estava um pouco tonta devido ao vinho, que por sinal colocou na geladeira, foi ao banheiro, tirou toda a roupa, sentou-se ao vaso, fez todas as suas necessidades fisiológicas, tomou um longo banho, pesou-se nua e molhada em sua balança: 68 quilos, um pouco abaixo do normal (IMC:18,8), que apesar de todas as calorias que consumia nunca engordou uma grama. Assim, nua e molhada, adormeceu seu belo e alvo corpo. Dormiu um sono sem sonhos.
Antes de mais nada, naquele dia ela pensava em se suicidar.
Acordou alegre e feliz no dia seguinte, como há muito tempo não sentia. Olhou seu belo corpo nu no espelho e agradeceu a Deus por tê-la feito assim. Colocou um vestido leve e bem curto, sem qualquer tipo de lingerie por baixo e blusa de lã curtinha por cima do vestido, e assim saiu para a rua às 8h15m, apesar de estar um pouco frio. Foi até a padaria na esquina oposta a sua casa, sentou-se ao balcão, tomou um café-com-leite, pão francês com manteiga, deu 10 reais e pediu para o padeiro ficar com o troco e saiu a passear saltitante como uma criança, apesar dos seus 32 anos. Andou, andou, horas e horas, passou por várias avenidas até chegar uma grande avenida. Ali entendeu o porquê de estar sem lingerie, queria fazer algo que nunca fizera na vida, que sempre teve vontade de fazer mas nunca teve coragem de realizar, e inconscientemente escolheu a menos perigosa e mais prazerosa de todas estas coisas. Decidiu fazer à segunda: transar com um desconhecido e não perguntar o nome.
Achou o desconhecido, que era um homem de 58 anos, mas muito charmoso, levou-a a um restaurante caro japonês, ela fez-lhe um interrogatório, foram a um motel longe da cidade e ali transaram a tarde inteira. Não vou contar como foi, pois seu que tu, belo leitor, tens uma bela imaginação, não vou insultá-lo com esta chula descrição. Só direi que ela teve três orgasmos maravilhosos e que arriscou-se muito. Transou sem camisinha.
Um mês depois descobriu que estava grávida, três meses depois descobriu que não estava com AIDS.
Nasceram três filhos lindos (quem diria que seriam trigêmeos), encontrou com o homem mais três vezes, por coincidência mesmo, pois os encontros foram em locais bem distantes da cidade onde morava.
Maria Helena pulou de pára-quedas, bang-jump, subiu montanha, nadou em mar aberto, foi ao Pólo Sul, comeu inseto na China e gostou, viajou para a Áustria para visitar o túmulo dos pais, e fez uma série de coisas que antes não tinha coragem de fazer. Mas nunca mudou de endereço.
Morreu 63 anos depois, alegre e feliz, com 12 netos. Sendo 6 gêmeos e 6 trigêmeos. Maria Helena desde aquele que acordou alegre e feliz como uma adolescente, foi realmente alegre e feliz todos os dias de sua vida e assim morreu: verdadeiramente feliz. Pelo menos ela.
Conto que faz parte de meu livro "Contos do Sótão Quente" ainda não publicado, interessados, no livro mandar e-mail para:clunkbr@yahoo.com.br